Isca ali coisa alguma fisgava,
homens-cadáveres em vão nadavam
Margem nenhuma esperança fitava
às fragatas que ali naufragavam
Suas águas revelavam um fino dorso
onde não se dormia nem o ser mais cansado
Onde suas duras penas não levantavam vôo,
onde o câncer do fumante acendia outro cigarro
Não cabia ali promessa,
nem fé, nem santo
Não havia quem pudesse estender a mão
Havia sim uma sereia possessa
entoando seu fúnebre canto
Nua em pecado, vinho e pão
Ali o peso morto enterrava a sorte,
o coveiro e a morte
Expelia o verme putrefato da boca do roto
e o dente de ouro do ganansioso mais nobre
Alcóolatras então se afogavam,
bocas afiadas morriam de fome
Em eterna desilusão todos ali se encontravam
sem carta, sem selo, sem nome.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
sábado, 19 de dezembro de 2009
Humanos
Nos apegamos a soluções drásticas,
segundas-feiras dramáticas
e incompatibilidades telepáticas.
Enquanto a sombra que a palmeira faz
abriga um berço em túmulo
Onde o silêncio que jaz profundo
se põe nos braços da paz.
segundas-feiras dramáticas
e incompatibilidades telepáticas.
Enquanto a sombra que a palmeira faz
abriga um berço em túmulo
Onde o silêncio que jaz profundo
se põe nos braços da paz.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Centelha
Já bancou o poeta e atravessou as madrugadas?
Já ousou ficar acordado tempo demais a ponto de tomar café com os que bem dormiram?
Pois você é um dos meus,
a quem posso chamar de amigo.
Agora que já nos apresentamos,
puxe uma cadeira e ouça bem o que eu digo:
Apaga a centelha do teu formidável cigarro!
A vida aqui secou e agora é palha
O menor descuido pode nos incendiar...
Já ousou ficar acordado tempo demais a ponto de tomar café com os que bem dormiram?
Pois você é um dos meus,
a quem posso chamar de amigo.
Agora que já nos apresentamos,
puxe uma cadeira e ouça bem o que eu digo:
Apaga a centelha do teu formidável cigarro!
A vida aqui secou e agora é palha
O menor descuido pode nos incendiar...
domingo, 9 de dezembro de 2007
Diário de uma Bicicleta
Era uma daquelas ruas... Sim, cadeira de balanço na porta de casa, chão de terra e crianças rivalizando em número com os adultos. Um ambiente perfeito, algo com cheiro e pequenos detalhes suficientes para que você não pudesse lembrar de tudo depois, mesmo que quisesse. Era lá que se podia ver o tipo de cena onde, diante de uma partida ruim, o dono da bola a tomava em fúria de volta pra dentro de casa. Também foi lá que Lili devorou o papagaio do vizinho (num mistério felizmente nunca descoberto pelo mesmo); que mamãe derrubou o muro de uma grande amiga do outro lado da rua ao tirar o carro da garagem; e onde Benjamim aprendeu a andar de bicicleta.
A dita cuja era uma Caloi preta, aro 15, com guidón em V, coisa de menino. Ao contrário da rosa com cestinha na frente da sua irmã; prontamente copiada por Bárbara, que comprara um modelo igualzinho, causando histeria e choro na primeira. Com o tempo elas suportaram desfilar juntas pela rua, de bicicletas gêmeas. Coisa de menina.
No entanto, Benjamim ainda detinha um pequeno problema: aquelas rodinhas! Não dava pra andar em terreno seguro por toda a vida, não dava pra ganhar respeito em sua pouca idade desse jeito. Era preciso abandoná-las pra sempre, e isso causou comoção na rua inteira. Todos davam seu voto de apoio, alguns até se voluntariavam para ensinar e tudo!
No dia em que obteve sucesso, havia muitos desses acompanhando. Por certo sentindo o calor do momento, um garoto e sua bicicleta prontos para seguirem em liberdade. Como lhes disse no começo, a rua era de terra, irregular, e algo que não deixei bem claro, com uma fábrica de gesso sentenciando seu quase fim, deixando nosso herói praticamente sem saída. Pois eis que numa dessas, depois de algumas tentativas ele pôde perceber que não havia mais alguém lhe empurrando, estava só, em velocidade e rua abaixo (o que inicialmente lhe causou raiva com algo de choro, mas que logo tratou de esquecer tendo em vista que não tinha tempo pra terminar de sentir nem um nem outro).
Ali, meio que torto no controle do guidón, sem pedalar, sem acreditar no que acontecia, se confortou no muro da fábrica e colheu a comemoração de quem o assistia convenientemente. As rodinhas estavam se aposentado e Benjamim havia iniciado seu árduo caminho até pegar as chaves do carro.
A dita cuja era uma Caloi preta, aro 15, com guidón em V, coisa de menino. Ao contrário da rosa com cestinha na frente da sua irmã; prontamente copiada por Bárbara, que comprara um modelo igualzinho, causando histeria e choro na primeira. Com o tempo elas suportaram desfilar juntas pela rua, de bicicletas gêmeas. Coisa de menina.
No entanto, Benjamim ainda detinha um pequeno problema: aquelas rodinhas! Não dava pra andar em terreno seguro por toda a vida, não dava pra ganhar respeito em sua pouca idade desse jeito. Era preciso abandoná-las pra sempre, e isso causou comoção na rua inteira. Todos davam seu voto de apoio, alguns até se voluntariavam para ensinar e tudo!
No dia em que obteve sucesso, havia muitos desses acompanhando. Por certo sentindo o calor do momento, um garoto e sua bicicleta prontos para seguirem em liberdade. Como lhes disse no começo, a rua era de terra, irregular, e algo que não deixei bem claro, com uma fábrica de gesso sentenciando seu quase fim, deixando nosso herói praticamente sem saída. Pois eis que numa dessas, depois de algumas tentativas ele pôde perceber que não havia mais alguém lhe empurrando, estava só, em velocidade e rua abaixo (o que inicialmente lhe causou raiva com algo de choro, mas que logo tratou de esquecer tendo em vista que não tinha tempo pra terminar de sentir nem um nem outro).
Ali, meio que torto no controle do guidón, sem pedalar, sem acreditar no que acontecia, se confortou no muro da fábrica e colheu a comemoração de quem o assistia convenientemente. As rodinhas estavam se aposentado e Benjamim havia iniciado seu árduo caminho até pegar as chaves do carro.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Cabeça de Camarão
Arriscou. Pôs o salgadinho de camarão na boca e veio o gosto. Sentiu o leve queimar.
"Então era assim..." - pensou. Reparara que nunca havia esquecido de fato, como andar de bicicleta. Extremamente familiar, apesar do longo tempo separados. Aquela amizade verdadeira que não tem como ficar desconfortável. Poucas palavras - no caso dele mordidas - bastavam pra voltar a tagarelar como velhos amigos.
Passada a excitação inicial, divagou. A garganta não havia tentado se fechar, muito pelo contrário! Pele empolada? Não, não. Checado.
- O que mais falta?
Se sentia extremamente bem com isso, boca cheia, matando saudades.
Quase 5 minutos se foram e não havia nenhum sintoma aparente. Pronto! Já era o bastante para se vislumbrar na praia. Cerveja gelada, pança ao sol.
"Ei, grande!" - era um daqueles que chamavam assim os garçons, não importava de qual tamanho fossem - "outro ensopado de camarão!" - bradava empolgado.
- Tantos anos, veja só! Devia ter feito aquele teste de alergia. Ah, devia!
Seguiram-se mais dois ou três daqueles salgadinhos, quando fez que ia maneirar. E de fato o fez. Só voltou a comer no fim de semana depois de certo, na praia como havia imaginado.
Caio Camanducaia morreu de velhice, afinal. Feliz além da conta pois não sofrera mais a tal alergia. A vida não tinha lhe privado por tanto tempo o prazer de comer camarão.
"Então era assim..." - pensou. Reparara que nunca havia esquecido de fato, como andar de bicicleta. Extremamente familiar, apesar do longo tempo separados. Aquela amizade verdadeira que não tem como ficar desconfortável. Poucas palavras - no caso dele mordidas - bastavam pra voltar a tagarelar como velhos amigos.
Passada a excitação inicial, divagou. A garganta não havia tentado se fechar, muito pelo contrário! Pele empolada? Não, não. Checado.
- O que mais falta?
Se sentia extremamente bem com isso, boca cheia, matando saudades.
Quase 5 minutos se foram e não havia nenhum sintoma aparente. Pronto! Já era o bastante para se vislumbrar na praia. Cerveja gelada, pança ao sol.
"Ei, grande!" - era um daqueles que chamavam assim os garçons, não importava de qual tamanho fossem - "outro ensopado de camarão!" - bradava empolgado.
- Tantos anos, veja só! Devia ter feito aquele teste de alergia. Ah, devia!
Seguiram-se mais dois ou três daqueles salgadinhos, quando fez que ia maneirar. E de fato o fez. Só voltou a comer no fim de semana depois de certo, na praia como havia imaginado.
Caio Camanducaia morreu de velhice, afinal. Feliz além da conta pois não sofrera mais a tal alergia. A vida não tinha lhe privado por tanto tempo o prazer de comer camarão.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Um nome pra Layla
Layla tem um modo particularmente sonoro de mastigar. Uma disfunção ou uma grande vontade – não sei bem. Mas isso não é problema levando em conta que às vezes ronca - "hoje o dia foi longo" – alega arrependida quando a advirto. Perfeitamente aceitável. Era ela quem reclamava do meu modo de escovar os dentes sempre pros lados, com uma escova já desgastada demais. Eu gostava, a achava bem familiar assim, mas também gostei quando ela me comprou uma nova. Estranho como tudo no início, devido às cerdas novas e retilíneas - que logo cuidaram de ficar macias. Uma metáfora pro nosso relacionamento também, por assim dizer.
Moramos juntos há quase três meses em decorrência do noivado, mas nos conhecemos há bons um ano e nove meses (passa o tempo e permanece a matemática, vocês imaginam). Pois assim tudo o que passamos é como um parto esticado além da conta, com o bebê prometido pro final. Mas isso é só meu modo de dizer. Veja bem, Layla não está grávida e nem pretendemos no momento, mas pelo menos uma coisa relativa a tanto já é discutido: o nome.
Pensamos em evitar os clichês típicos do assunto, então recorremos aos nomes que gostaríamos de ter pra nós mesmos. Talvez por um desgosto de infância durante a chamada oral, onde todos conseguiam criar um novo jeito de chamá-la (Layla tinha ganhado o seu devido àquela música do Eric Clapton que sua mãe ainda hoje cantarola), logo decidiu. Cuidou de não dar trela aos pitacos da futura vó pois não queria tal herança criativa atravessando gerações, ainda mais quando seu irmão mais novo escapou de se chamar Hey Jude.
Moramos juntos há quase três meses em decorrência do noivado, mas nos conhecemos há bons um ano e nove meses (passa o tempo e permanece a matemática, vocês imaginam). Pois assim tudo o que passamos é como um parto esticado além da conta, com o bebê prometido pro final. Mas isso é só meu modo de dizer. Veja bem, Layla não está grávida e nem pretendemos no momento, mas pelo menos uma coisa relativa a tanto já é discutido: o nome.
Pensamos em evitar os clichês típicos do assunto, então recorremos aos nomes que gostaríamos de ter pra nós mesmos. Talvez por um desgosto de infância durante a chamada oral, onde todos conseguiam criar um novo jeito de chamá-la (Layla tinha ganhado o seu devido àquela música do Eric Clapton que sua mãe ainda hoje cantarola), logo decidiu. Cuidou de não dar trela aos pitacos da futura vó pois não queria tal herança criativa atravessando gerações, ainda mais quando seu irmão mais novo escapou de se chamar Hey Jude.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Meu amigo gato Bóris
O nome já diz tudo: num zunido, desperta minha dor
Rotina me recebendo de braços abertos, sem açúcar
É assim que troco a noite pelo dia, indecência por inocência
Neném sem pecado querendo mamar!
Olho meio de brecha pro gato Bóris, soberbo
me repreendendo entre olhos e bigodes numa miada fria - como quem diz - "Traidor!"
Pois eis que se revira e num segundo volta a dormir.
"Ingrato!" - invejo antes de ir. De fato o castigo é só meu, embora não acredite que existam boas razões para merecê-lo - se trabalho não penso e se penso não trabalho.
Hora de levantar!
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